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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Mercado dá chilique para volta do auxílio, mas não deu para o negacionismo

Covas sendo abertas em cemitério de Manaus, em 31 de dezembro de 2020; Brasil registrou quase 195 mil mortes por covid-19 no ano passado - Reuters
Covas sendo abertas em cemitério de Manaus, em 31 de dezembro de 2020; Brasil registrou quase 195 mil mortes por covid-19 no ano passado
Imagem: Reuters
 Sakamoto :Colunista do UOL

09/02/2021 20h52

O Brasil fez um isolamento social meia boca ao longo do ano passado. Com um presidente da República aliado do coronavírus e excitando negacionistas a irem às ruas até na defesa de autogolpe de Estado, as quarentenas nunca foram totalmente obedecidas por aqui.

Resultado: uma primeira onda tão longa que se conectou à segunda, sem um tempo de refresco para as pessoas e a economia. Consequentemente, o auxílio emergencial continua sendo necessário.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, afirmou, corretamente, que o benefício é assunto de sobrevivência dos trabalhadores e não pode ser condicionado a ajustes fiscais, como havia defendido o ministro da Economia.

Jair Messias, que em silêncio torce para a volta do benefício, o que ajudará a estancar a sangria de sua popularidade, afirmou ontem que ele deve ser mesmo prorrogado. E não foi em um lugar qualquer, mas em um programa com grande audiência popular, comandado por José Luiz Datena.

Com isso, operadores do "mercado" deram chilique ao longo desta terça.

Mas se até um guaxinim, que não sabe o que é um derivativo, apostaria seu dinheiro na volta do auxílio diante das mais de mil mortes por dia, imagina esse povo que analisa riscos e se antecipa a decisões políticas. A questão é que muita gente gosta de um autoengano, outros tantos têm ideologia bem definida.

Operadores e analistas do mercado não surtaram feio todas as vezes, no ano passado, em que o presidente da República promoveu aglomerações e defendeu o fim das quarentenas para forçar uma volta irreal à vida normal. E foi a irresponsabilidade de Bolsonaro e o vácuo de articulação nacional que fizeram com que o Brasil perdesse tantas vidas e gastasse mais do que devia pela extensão desnecessária da primeira onda.

Chiliques naquele momento poderiam ter passado uma pressão importante.

Poderíamos ter tido um momento de retorno à (quase) normalidade, mas o presidente e o naco negacionista da população não deixaram. Agora, a retomada do benefício do auxílio emergencial é uma consequência lógica.

E, de preferência, acima das 200 jujubas que o Ministério da Economia analisa desembolsar - e que paga apenas 32% da cesta básica completa em São Paulo.

Mas o grosso do mercado não vai abandonar o capitão. Uma parte é bolsonarista desde criancinha e acredita que só é pobre quem não se esforçou. Outra parte adora as músicas da boy band "Guedes e os Ultraliberais", torcendo para ela tocar seus hits "Meritocracia Hereditária", "CLT desce ao Inferno" e "Pau no BPC".

Há sim o grupo responsável, que sabe que isso pode aumentar o buraco fiscal, mas entende que a hora é de salvar vidas e, consequentemente, a economia. Mas, ironicamente, seus chiliques raramente são ouvidos. Inclusive, na imprensa.

O governo, pelo menos, deveria ter feito sua lição de casa e estabelecido fontes de recursos para renovar o auxílio. Mas resolveu esperar. Ou melhor, enrolar e torcer, o que mostra o naipe de nossos planejadores.

Há gente no governo Bolsonaro de dedos cruzados para que o número de mortos caia sem que um auxílio precise ser pago. Enquanto isso, corpos se acumulam.

Rodrigo Maia era muito mais pró-mercado que Arthur Lira e Rodrigo Pacheco. Mas, como eu disse, tem gente que gosta de um autoengano.

Se achava que o centrão iria se tornar vassalo de suas pautas, ignorando sua base e seus interesses pessoais, o mercado realmente precisa de um bom calmante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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